Madalena
Magdalene at a Mirror (c. 1635-1640) de Georges de La Tour
Jesus não adoraria joias e vestimentas púrpuras. Ele foi amigo de Madalena, esse ato não deveria ser visto como caridade ou comiseração, sua presença e a aceitação de seus "erros" é uma honestidade maior dos que se pretendem puros. No quadro acima, Madalena olha absorta o espelho, que não é facilmente visualizado, mas, pelo menos por mim, pressuposto, o reflexo no caso, são seus próprios pensamentos, reflexões... O pensamento é também um reflexo, mas não chamamos de espelhamento e sim reflexão. Sua mão direita segura seu rosto em posição de inflexão, a esquerda toca um crânio, parte de um esqueleto que representa a morte. Para mim ela observa na verdade o que parece ser uma ampulheta, no caso, o símbolo do tempo. Enfim, são muitas observações e o que me fascina é a representação de uma mulher refletindo em um estilo barroco, de claro-escuro (chiaroscuro), normalmente representam apenas homens, como se só a eles fosse reservado o pensar... E vale lembrar que se existiram os escritos de Madalena, eles já foram "devidamente" destruídos. Que perigo é o pensar e contar sua própria história.
Vidros, espelhos, areia ao vento... Objetos como espelho e vidro são feitos por matéria vulgar e abundante, a areia, mas é o processo árduo de queima e combustão que transformam a areia em algo como o vidro, tão frágil, mas ao mesmo tempo tão complexo. Assim, somos nós mesmos, frágeis e complexos, e ao mesmo tempo capazes de atirar pedras uns nos outros, mas como disse Jesus: "Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela".
De Heráclito à Bíblia e avante, "do pó viemos ao pó retornaremos". Triste e consolador é saber que ninguém mais sente a nossa própria dor, por isso tão importante o amor próprio, primordialmente a quem busca amor na dor.
Camila J., 27 de novembro de 2023.
Comentários
Postar um comentário